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23/07/2010

Sabonete não! Assim como Conversas

  Gosto das pessoas! Não de conversar com elas. Mas de poder vê-las em suas respectivas relações e atividades do cotidiano. Muitas vezes são cômicas, e outras, deveras dramáticas.
  Hoje pela manhã, acordei bem cedo. Escovei os dentes, coloquei uma roupa de fim de semana, - mas ainda é quarta-feira, desci os seis andares do prédio em que moro, e subi a ladeira até um café que existe aqui perto. Pedi um chocolate quente. O balconista me ofereceu creme, para colocar, mas eu recusei. O creme que eles usam tem gosto de sabonete. Eu não gosto de sabonetes. Eles são ruins para minha pele. As pessoas dizem que não, mas eu sei que são ruins para minha pele. Prefiro apenas jogar água pelo corpo, mas sabonete não!
  Estava ali por perto uma mulher muito bonita de rosto, mas seu corpo parecia frio aos meus olhos, eu realmente não senti nenhuma excitação ao olhá-la. Mas seu rosto me chamava muito a atenção. Eu gostaria de falar com ela, mas não fui. Sempre tenho vontade de falar com as pessoas, mas depois que puxo uma conversa, eu me arrependo, e arranjo uma forma de me livrar do sujeito. Até agora não sei por que seu rosto me chamava a atenção, só sei que peguei meu chocolate, virei para o balcão e comecei a beber. O garçom puxou uma conversa comigo. Olhei bem dentro de seus olhos. Levantei-me, e me pus a caminhar a uma outra mesa, e sentei em uma cadeira de forma que eu pudesse ficar de costas para ele. Não me importei com nada do que fiz, e ainda não me importo. Em minhas observações das pessoas, eu posso dizer que já vi coisa bem pior, afinal, o que há de errado em ignorar as pessoas?Muitos gostariam de ter a coragem de ignorar as pessoas, acontece que TODOS têm vontade, mas poucos realmente agem da forma que pensam.
  Chega ao café uma mulher loira e alta. Eu gostei de seus quadris. Ela perscruta com seus olhos por todo o estabelecimento e acha a mesa da “fulaninha” que comentei, e se dirige para lá.
  Começam as apresentações, e com elas, minhas observações. Ouço:
-Parabéns... Seu aniversário foi ontem não?
  Não sei por que as pessoas dizem parabéns para a as outras em aniversários. Você se encontra naturalmente mais velho, e é algo que você não pode controlar. E não é nada de mais, apenas um processo. Parabéns se dá a uma pessoa quando ela realiza algo fora do ordinário, é uma congratulação. Sinto um profundo ódio quando alguém me parabeniza pelo aniversário.
-Eu tenho que te contar algo muito importante...
-O que foi? O que é, fale logo, o que tem tanta importância assim?
Nessa parte eu atentei mais ainda para suas palavras, estava quase pulando da mesa para saber o que ela iria dizer.
-Nossa menina... Vou te contar, não sei o que fazer em relação ao Pedro! Ele fica me ignorando e achando que isso de alguma forma vai me fazer ir pra cama com ele. Coitado dele, mal sabe ele que sou diferente de TODAS as outras! TODAS! Não sou “qualquerumazinha” que fica doida se um cara não liga pra ela 3 dias depois do primeiro encontro...Mas poxa, já são 5 dias! Ai menina... Será que ele vai ligar?
  Depois deste depoimento, eu fiquei realmente pasmado. Não sabia o que fazer.
  Como algo assim, uma coisa tão frívola pode ganhar tanta importância para alguém?
  Eu senti um profundo nojo de tudo isso! Lembrei-me de todas as merdas que pessoas como essa garota dos quadris, falaram para mim, no mesmo tom de importância e confidência. Esse nojo rapidamente se tornou ódio e raiva, e procurei por algo que eu pudesse utilizar com tremenda violência com a mulher. A única coisa que encontrei foi o meu chocolate quente, que eu peguei, segurei pelo cabo da caneca, me levantei e me dirigi hasta el punto. Olhei bem dentro de seus olhos com um olhar: “vai se foder sua vadia, você não tem razão”. Joguei o líquido em seu rosto, e quebrei a caneca em cima da mesa. Pena que o liquido não estava mais tão quente assim. Achei que estivesse. Não estava.
Elas ficaram com uma cara de muito assustadas. A que eu achei que possuía um rosto interessante pulou da cadeira. Mas no fim, percebi que ela tinha esboçado um sorriso mínimo e rápido.
  As pessoas me olharam como se eu estivesse muito drogado. Hipócritas. Na maioria das vezes elas querem também fazer o que eu fiz nesse momento. Mas preferem manter a pose. Se as pessoas não gostassem de manter a pose, e houvesse mais reações como a minha, eu duvido muito que o mundo estaria assim como está hoje. As pessoas pensariam mais no outro primeiro, em vez de falarem merdas fodas que culminam em reações como a minha.
  Apenas olhei nos olhos de todos enquanto ela pestanejava atrás de mim, e depois disso, me retirei e fui para casa. Agora estou aqui, me lembrando disso tudo, e escrevendo esse conto, e colocando nesse blog.


Por Neanderthal

27/06/2010

Reflexo




E o dia amanhece em sépia. O homem levanta, se dirige ao banheiro e urina como normalmente faz todos os dias após se levantar. Ainda meio letárgico ele abre a torneira da pia e enxágua seu rosto.
Agora ativo, pode através de suas rugas e cabelos brancos perceber o peso de seus quarenta e sete anos refletidos no espelho. Não que ele fosse velho, tampouco tivesse as feições se um idoso - era alto em seus 1,85m, por onde eram distribuídos 87 kg, caucasiano, olhos castanhos e expressivos - mas já não tinha a juventude que outrora ele havia tratado com apatia.
Naquele momento, veio em sua mente: "vaidade das vaidades, tudo é vaidade". E lembrou-se também de uma frase que lera na última noite antes se dormir, era de um conto de Saramago: "o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa as pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra..." Percebera então que o que vivera até ali era puramente ilusões, e nada era o que parecia ser.
- Como pude viver desta forma? - Perguntou.
O espelho ríspido e prontamente rebateu:
- Dize-me tu!
- Hein?
- Sim. Dize-me tu! O único que pode responder a esta pergunta é você mesmo. Você quis viver assim, ou alguém te impôs este modo de viver?
- Espere... Não sei... Como você está falando?
- Acalme-se! Se foque em minha pergunta.
O homem, um tanto atônito, começa a refletir na pergunta do espelho.
- Você tem razão! Talvez eu tenha escolhido este modo de viver. Minhas decisões... Aquela vez... Minhas palavras tão duras e amargas...
Neste exato momento o espelho estoura, e um estilhaço voa no rosto daquele que se encontrava em devaneio pensando na vida, como se fosse um tapa, e este por sua vez começa a sentir um reboliço em seu estômago. Ele olha para a privada e começa a ver o odor subir, para lá se direcionou e vomitou uma substância de cor marrom. O espelho para de falar e o dia perde seu tom sépia. Caiu a ficha: "Não devo tomar chá de cogumelo antes de dormir, o sonho é um prestidigitador hábil!”.

Por Neanderthal